Formação e mercado imobiliário de luxo

Texto: Filipe Lourenço Imagem: Freepik/ gpointstudio

O segmento de imobiliário premium deve, por natureza, espelhar excelência, sofisticação e confiança. Atributos que deveriam começar nos consultores. Contudo, o sector enferma de vários males, como a não exigência legal de formação formal para acesso à atividade e, em muitos casos, a inexistência de formação contínua ou, sequer, inicial, sendo um mercado algo informal e sem regulamentação específica. São fatores que há muito causam danos reputacionais e de sustentabilidade do mercado.

Como CEO de uma empresa que opera no segmento premium, sinto-me na obrigação de defender mudanças estruturais que garantam os índices de qualidade e a credibilidade do sector.

Ao longo dos anos, o sector imobiliário tem sido visto como uma «tábua de salvação» para profissionais de outras áreas. A falta de um curso de acesso à profissão e de critérios claros para o exercício da atividade permite que pessoas sem formação adequada ingressem no mercado. Isso resulta em serviços de qualidade sofrível, falta de profissionalismo e, em última instância, na desestabilização do mercado.

A crise de 2008 e, mais recentemente, a pandemia de Covid-19, trouxeram uma avalanche de novos consultores, oriundos de sectores como hotelaria, restauração e aviação. Embora a vontade de trabalhar seja legítima, a falta de conhecimento específico e de ferramentas adequadas tem impactado negativamente a reputação do sector, especialmente no segmento de luxo.

Defendo há muito que a criação de um curso de acesso à profissão é essencial para garantir a qualidade dos serviços prestados. Este curso deveria ser obrigatório e sujeito ao escrutínio de organismos do Estado, que garantiriam a sua qualidade e a sua relevância. A formação específica em áreas como avaliação de imóveis, técnicas de negociação, legislação imobiliária e ética profissional é fundamental para preparar os consultores para os desafios do mercado.

Além disso, a formação contínua deveria ser obrigatória. O mercado imobiliário está em constante evolução e os profissionais precisam de se manter atualizados sobre legislação, tendências, tecnologias, melhores práticas e muitas outras áreas cruciais.

Acredito que as pessoas são, de facto, o maior ativo. Vivemos de relações interpessoais. Por isso, é crucial apostar fortemente na estabilidade da equipa, na formação nacional e internacional e no fornecimento de ferramentas avançadas de gestão. Acredito que a excelência só é alcançada quando os profissionais estão bem preparados, motivados e alinhados com os valores da empresa.

No caso da empresa que lidero, a abordagem inclui ainda programas de formação interna, parcerias com instituições de ensino superior e participação em formações e eventos internacionais. Estas iniciativas não só elevam o nível de competência dos consultores, como também reforçam a confiança do mercado.

O segmento de luxo exige um nível de serviço que vai muito para além da simples transação comercial. Os clientes esperam um atendimento personalizado, conhecimento profundo do mercado e uma postura ética irrepreensível. Quando consultores mal preparados entram neste segmento, o impacto é devastador: clientes insatisfeitos, desvalorização de propriedades e, por fim, uma crise reputacional que afeta todo o sector.

É urgente que o sector imobiliário, especialmente o segmento premium, adote medidas que garantam a qualidade dos serviços prestados. A criação de um curso de acesso à profissão, a regulamentação da atividade e a aposta na formação contínua são passos essenciais para proteger a reputação do sector e garantir um crescimento sustentável.



Filipe Lourenço
, Chief Executive Officer (CEO) da Private Luxury Real Estate


A Private Luxury Real Estate é uma consultora especializada em comercialização de imóveis de luxo nas zonas mais premium de Portugal. Fundada pelo Grupo SCI, é responsável por um grande número de transações de imóveis premium no nosso país.

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